Igrejas

Igreja Matriz de Nossa Senhora dos Mártires

Num mundo que encerrou para sempre a Idade Média, fundamentalmente rural, o novo milénio iniciou-se sob o signo do desenvolvimento urbano. Este desenvolvimento criou-se em torno das cercas muralhadas dos castelos medievais e destas partiram à conquista de terrenos circundantes. 

Castro Marim não fugiu à regra e tornou-se numa das vilas que se geraram em torno de um elemento, o Castelo, alargando-se pelo vale que o separa do Cerro do Cabeço, o­nde mais tarde se implantou o Forte de São Sebastião. 

Neste vale surgiu, no século XVI, uma Ermida, denominada de Nossa Senhora dos Mártires, pela incapacidade da Matriz da vila, intramuralhas, abrigar todos os fiéis. Esta Ermida foi visitada por diversas vezes, durante o século XVI, pela Ordem de Santiago, que tinha tido a sua sede no Castelo de Castro Marim entre 1319-1356, ano em que se trasladou para a vila de Tomar. 

As visitas da Ordem de Santiago descrevem a Ermida como tendo um único corpo, com capela-mor abobadada com coruchéu e um altar em alvenaria com tribuna, onde assentava uma imagem de vulto de Nossa Senhora com o Menino, em pedra; no corpo da Ermida, de uma só nave, estavam três imagens pintadas de matiz, uma de S. Bartolomeu, uma de Sta. Catarina e outra de S. Sebastião; possuía um portal principal a poente e outro a sul, cada um com duas pias de água benta embutidas na parede de alvenaria; um adro, em redor da dita Ermida, onde se enterravam os defuntos.

Do registo das visitas – Visitações - de 1518 para a de 1534, foi esta Ermida acrescentada por um alpendre a poente, abrigando o portal principal, seguindo em toda a fachada sul. A Visitação de 1554 dá-lhe a localização da sacristia, que dantes não era focada, a sul com porta de verga reta. A Visitação de 1565 denuncia um aumento da altura das paredes, a substituição das madeiras dos tetos por novas e o acrescento de um novo alpendre, desde a fachada principal até à parede da sacristia. 

Após o terramoto de 1755, responsável pela destruição da Igreja Matriz de Santiago, foi esta Ermida tornada paroquial da vila, mandada construir pelo Lopo Mendes de Oliveira, Comendador da Ordem de Cristo e Alcaide deste Castelo.

Devido à sua pequenez, foi mandada restaurar e ampliar entre os finais do século XVIII e início do século XIX, tendo as obras ficado concluídas em 1834, sob a responsabilidade do arquiteto João Lopes do Rosário.

Denuncia na sua arquitetura várias campanhas arquitetónicas de grande interesse: galilé renascentista; zimbório e abobada de lunetas da capela-mor barrocos; elementos neomanuelinos na platibanda que sobrepõe a galilé. 

Possui uma planta longitudinal de nave única, coro-alto com balaustrada de barriga em madeira, transepto e capela-mor de dois tramos; a fachada principal, a oeste, é tripartida, com portal principal de verga reta sobrepujada por frontão de lanços com tímpano triangular, encimado por janelão retangular e relógio circular com telhado em empena com cruz de ferro no topo; na fachada sul, galilé com cinco vãos em arco de volta perfeita assentes em colunelos de capitéis neomanuelinos, onde existe um painel de azulejos azuis e brancos, evocando Nossa Senhora da Conceição. É possuidora de vários exemplos de imaginária do século XVI e XVIII, em madeira, bem como retábulos no altar-mor e transepto em madeira marmoreada e polícroma. 

Reparte esta Matriz com o Castelo, a norte, e o Forte de São Sebastião, a sul, a moldura que compõe a imagem de Castro Marim, denunciando as linhas singelas de todo o casario que os envolve.

 

Ermida de Santo António

Com o aumento da terra firme, de melhores condições de segurança, aumento demográfico e o progressivo desenvolvimento económico ligado à atividade marítima, houve a expansão da vila para fora do recinto muralhado medieval.

Desta expansão e durante as Guerras da Restauração, em 1640, resultou a construção do Forte de São Sebastião, no Cerro do Cabeço, e do Revelim de Santo António, na colina denominada Rocha do Zambujal, que envolve a referida Ermida de Santo António, mandados erigir por D. João IV.

Estas duas zonas fortificadas anexas ao Castelo fizeram com que esta vila fosse, no século XVI/XVII, a praça de guerra mais importante do Algarve.

O Revelim de Santo António é composto por uma estrutura abaluartada em "U", detendo no seu centro e cimo da colina a Ermida do mesmo nome com a localização W/E, funcionando como miradouro sobre os dois elementos que o enriquecem visualmente, o Rio Guadiana e o Sapal de Castro Marim.

Esta Ermida detinha, aquando da sua construção, uma planta quadrangular tendo, ao longo dos tempos, sofrido ampliações.

É composta, atualmente, por planta longitudinal, ampliada a N. por volume da sacristia e sala de arrumos e a S. por sala polivalente. Com Fachada Principal elevada, a W., e com adro murado, composta por: portal de madeira envolto em moldura de pedra ladeado por lambrim e cunhais pintados de cinzento, encimado por cercadura que pousa lateralmente sobre duas volutas, pintadas; sob janela quadrangular com moldura em pedra rematada por cercadura, com motivos iguais à do portal; cobertura de duas águas com cruz de Cristo ao centro; ladeada por campanário lateral.

Fachada Lateral N. cega composta por campanário de dois vãos encimado por cornija, rematada por dois pináculos bojudos, e por volume da sacristia e sala de arrumos com cobertura em telhado de uma água e duplo beirado.

Fachada Lateral S. cega composta por volume de sala polivalente com entrada a S., com cobertura de uma água e remate em duplo beirado.

Fachada W, correspondendo ao volume da capela-mor, cercada a S. pela sala polivalente e a N. pelo volume da sacristia, esta com janela a W.; com cobertura em cúpula e em telhado de duas águas com remate em duplo beirado.

Interior composto por nave longitudinal, com cobertura em abóbada de berço; dois retábulos laterais de meados do século XVIII, dedicados a N. Sra. da Conceição e Sta. Isabel, rasgadas nos alçados laterais em arco de volta perfeita sobre impostas e mesas de altar em madeira polícroma e envoltos por composição de volutas em talha pintada e brasão central.

Do lado do Evangelho, púlpito de caixa quadrangular de madeira polícroma, com acesso por porta simples; rodapé de madeira pintado marmoreado; sobre ele distribuem-se, de ambos os lados, sete tábuas de pintura, com cenas da vida do orago, inseridas em espaldar de madeira pintada com decoração vegetalista e cornija de remate.

Arco Triunfal de volta perfeita sobre impostas pintadas; acesso à capela-mor por degrau único; cobertura em abóbada de berço com caixotões pintados; retábulo-mor do século XVIII, plano de cinco panos definidos por colunas pseudo-salomónicas a que se sobrepõe arquitrave e edícula central com imagem de Santo António; lateralmente duas pequenas imagens sob plintos; encimado por decorações com volutas; lateralmente duas pinturas de cenas da vida do orago e duas portas de acesso, a da esquerda à sacristia, a da direita à sala polivalente. Sacristia composta por janela a W. e pequeno arcaz em madeira.

 

Igreja de Santiago

A vila de Castro Marim, que num princípio se desenvolveu dentro das muralhas do Castelo, foi cabeça da Ordem de Cristo a mando do Papa João XXII. Na altura em que as lutas contra os Mouros iam cessando, provocando uma diminuição da importância militar do Castelo e da vila, existiu um despovoamento do lugar, pelo que o regente D. Pedro tomou providências e lhe retirou o título conquistado outrora, trasladando esta Ordem para Tomar (c. 1356).

Dentro do Castelo Velho, de planta quadrada, quatro torres e torre de menagem, encontrava-se uma povoação. Junto à torre de menagem existia um campanário, que seria o da Igreja de Santiago construída no século XIV.

Esta Igreja era paroquial da freguesia, pois em 1320 já abrangia toda a área do concelho.

Foi a primitiva matriz da vila e onde se situou o Convento dos Cavaleiros da Ordem de Cristo, em 1504 transformado em quartel militar.

Foi esta Igreja Matriz acompanhada por várias Visitações, entre elas as de 1518, 1534, 1535, 1538, 1554 e 1565. Estas davam a sua localização entre Levante e Poente, de capela quadrada, com acesso por três degraus, com abóbada e retábulo-mor definido por cinco painéis, ao meio com a imagem de Santiago, de vulto. No lado esquerdo estava S. João e no outro lado S. Sebastião, tendo, no entanto, estes santos sofrido alterações de localização.

Na fachada norte há um adro demarcado, colocando a hipótese, na Visitação de 1554, de aí fazer um cemitério, porque "pelas outras bandas passavam as estreitas ruas da vila", e um portal que dava acesso à sacristia que tinha paredes em taipa, feita aquando da Visitação de 1535.

O corpo da Igreja possuía três naves na Visitação de 1534, porque na de 1518 só possuía uma, e, de cada lado, tinha três arcos com colunas e capitéis de pedra e as naves laterais eram com uma só água, forradas de madeira.

Na banda do sul, no meio da fachada, uma porta com acesso por seis degraus e, sobre ela, um campanário com dois sinos e uma pedra com a espada da Ordem de Cristo. Junto à porta principal, no interior e do lado esquerdo, uma pia de água benta e uma pia de batismo. 

A Visitação de 1565 dá a descrição de dois altares laterais ao arco cruzeiro, o do lado do Evangelho com crucifixo de vulto.

Após o terramoto de 1 de Novembro de 1755 restou apenas uma parede da igreja, pelo que a partir dessa altura a Igreja Matriz passou a ser na Ermida de Nossa Senhora dos Mártires, localizada extramuros.

Após este terramoto e com o nascimento de Vila Real de Santo António em 1774, Castro Marim perdeu a influente posição que ocupara durante anos.

Atualmente esta igreja é composta por pórtico de entrada em capialço sobreposto por cruz de Santiago esculpida, adro a W e capela-mor sem abobada e com janela quadrangular a E.

 

Igreja de São Sebastião

Durante o período das Guerras da Restauração (1640), com as lutas em volta das praças fronteiriças que readquiriam a importância perdida, Castro Marim voltou a ter maior incremento que outrora tinha perdido e, com isto, a Santa Casa da Misericórdia adquiriu nova importância. 

Por esta altura levantaram-se outros baluartes, num dos quais havia a Capela de São Sebastião, arrasada aquando das obras do Forte, a que deu o nome.

Para que a vila não ficasse privada de templo, mandou D. João IV construir uma capela de invocação ao mesmo Santo, no ano de 1650, como dita a inscrição que se sobrepõe ao portal principal, que diz: "esta ermida de S. Sebastião mandou fazer el-rei D. João IV por lhe tomar outra pera forte. Anno de 1650."

Este novo templo situado junto a uma das entradas da vila, passou a ser a nova igreja da Misericórdia e a instituição trasladou-se para aí em 1838.

A nova Igreja de São Sebastião, ou da Misericórdia, pertence a um estilo vernacular da arquitetura religiosa, de planta longitudinal, de fachadas simples de pano único, sem quaisquer motivos decorativos, denunciando a crise em que vivia a corte portuguesa naquela altura. O interior está ricamente decorado por florões, volutas e putti em trompe l'oeil, decorando todas as fachadas interiores, como era uso no século XVII, pintados a têmpera. A capela-mor é simples, com cobertura em abóbada de berço, com retábulo de estilo rústico, arcaizante, datável de meados do século XVII, e a E. entrada para a sacristia de construção posterior.

 

Igreja de N. Sr.ª da Visitação

Esta igreja faz parte integrante da paisagem que se tem sobre a aldeia de Odeleite, freguesia de N. Sra. da Visitação, que desde 1534 faz parte dos livros de história e do concelho de Castro Marim.

Este lugar era então denominado Lugar de Deleite, o¬nde se situava uma encosta que olhava de frente para a Igreja de Nossa Senhora da Visitação.

Esta igreja foi visitada por duas Visitações, a de 1534 e a de 1565, que a descreveram na sua forma inicial.

Dizem estas que este templo terá sido construído após a Visitação anterior de 1518, daí deriva a sua tipologia interna de Igreja Mendicante, ou seja, referente ao período gótico. A Visitação de 1534 refere que o teto da igreja estava forrado a madeira de castanho com canas e o campanário existia sobre o portal principal, e era de vão único. 

A Visitação de 1565 diz-nos que esta igreja estava "arredada" da aldeia, e descrevem-na da seguinte maneira: referem que o teto da dita igreja estava "madeirado de tesoura e forrado de cana"; em cima do arco triunfal existia um crucifixo de vulto; a pia batismal era à esquerda, junto à entrada, e estava cercada de grades, encontrando-se, nesta altura, os fregueses da dita freguesia, em obras, para a colocarem dentro da aldeia de Deleite.

Hoje aparece-nos da seguinte maneira:

A fachada principal a W é composta por portal de verga reta em alvenaria de pedra, com pilastra lateral encimado por pequena cornija rematada lateralmente por dois pináculos retangulares incisos; sob janela retangular com moldura pintada a branco rematada por cornija; cobertura em empena e cruz de Cristo no topo, ladeada por campanário elevado de dois vãos com cornija, sob dois pináculos laterais e vão elevado ao centro com sino.

Fachada lateral S. com volume saliente composto por quatro janelas e porta ao centro com acesso por rampa, com cobertura sob cornija e telhado de uma água.

Fachada lateral N. cega com volume saliente correspondendo ao baptistério com cobertura em telhado de três águas.

Interior: igreja mendicante de planta longitudinal de três naves subdivididas por três arcos formeiros com colunas cilíndricas de capitel simples; cobertura em abobada para a nave central e uma água para as laterais. Naves laterais compostas por dois retábulos colaterais (2ª metade do século XVIII) sob cúpula, e dois retábulos laterais da mesma altura, em madeira polícroma e talha dourada sobre frontão de altar em sarcófago Arco triunfal de volta perfeita em alvenaria de pedra com pedra de fecho.

Capela-mor rectangular com acesso por degrau único e cobertura em abobada de lunetas, composta por: mesa de altar em talha; porta para sacristia à direita; três cadeirões em talha dourada sobre degrau; retábulo-mor de três panos sob frontão de altar em sarcófago, encimado por sacrário e camarim central elevado em abobada encimado por cornija, ladeado por colunas grupadas e caneladas, rematadas por friso e cornija; rematado em arco pleno com florão central com pomba branca ladeado por duas esculturas em alto relevo.

Sacristia a S. composta por arcaz à esquerda e cadeiral de madeira à direita, e fontanário.